Uma coisa são gracejos, bobagens, os piropos; outra, a agressividade de certas abordagens masculinas
Por Milena Moraes
Tenho me perguntado ultimamente algo que sempre me deixou muito P da vida na adolescência e que me fez acreditar em algum momento que eu não agia corretamente, que havia algo errado comigo. Qual o direito que um cara tem de falar qualquer barbaridade (leia-se cantada estúpida) para uma mulher? Pior, como consegue achar isso o máximo? Resposta imediata: é cultural.Não estou falando de bobagens engraçadinhas ou de um: “maravilhosa”, “linda”, e tal e coisa. Sou a favor de que as pessoas se expressem, sobretudo se isso fizer bem ao outro. Melhor ainda quando calha de poder responder: "lindo é você!", e que isso condiga com a verdade, claro.
Não falo de um “piropo” (assim se diz em Portugal e no Rio da Prata) lisonjeiro como o que ouvi recentemente e deixou minha manhã mais alegre: “Isso não é uma rua, é um aeroporto... Só passa avião!” Falo de grosserias e inconveniências. Falo de agressividade de palavras, atitudes e olhares. Falo de saber que não posso ir a um carnaval de rua sozinha ou só com amigas se a intenção não for ser bolinada por estranhos livremente. Falo de uma amiga que, voltando do trabalho de bicicleta, quase sofre um acidente porque um carro passou a 15 cm dela. Surpresa da moça foi se dar conta de que a intenção do carona era passar a mão nela. Falo do disparate de uma garota de 19 anos que foi a uma boate, disse não a um “conquistador” inconveniente e voltou pra casa com o braço quebrado em dois lugares por ele (confiram aqui).
O pior de situações como essas é a mulher refazer mentalmente, e isso é automático muitas vezes, toda a situação e se por a pensar no que fez ou deixou de fazer para que ela acontecesse... A mulher achar que fez algo errado é cultural também. Quem nunca ouviu um “isso não é coisa de menina séria” ou “tava pedindo”?
Quando digo que os homens pensarem que podem falar o que quiserem para qualquer mulher é cultural penso em uma época que só conheço de revistas antigas. Décadas em que a propaganda de máquina de costura era a de uma noiva agarrada na máquina com o slogan embaixo: “Sua companheira para tôda a vida”. O que chega a ser doce e inocente perto de outras campanhas gringas que encontrei na internet, por exemplo esta. Há uma que mostra um tapete de onça com a cabeça de uma mulher, o homem com o pé sobre a cabeça dela e o slogan: “É sempre bom ter uma mulher na casa”. Essa, embora pareça irreal e ainda mais risível que a primeira nos dias de hoje, é bem mais agressiva e parece ainda pautar comportamentos... Ainda é comum em festas por aí os caras agarrarem a mulherada pelo cabelo ou pelo braço na tentativa de ganhar um beijo. Embora a atitude seja bem “neandertal”, muitas vezes eles ganham. Vide imagens de micaretas pelo youtube a fora. Mas se não ganhar, amigo... Não precisa dar um golpe na moça.
Todos nós já tivemos e temos atitudes sexistas. Coisas aparentemente inocentes como achar que o homem tem que pagar a conta do restaurante e que mulher tem que saber cuidar da casa. Ninguém vai apertar um botão e mudar tudo. Mas até que ponto isso reflete nesse tipo de comportamento? Eu me sinto sempre como uma menininha indignada e questionadora, como essa deste vídeo.
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Milena Moraes é atriz e produtora. Conheça melhor o seu trabalho clicando aqui. Para segui-la no Twitter, clique aqui.
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Comentários
Fico contente em ler o texto e perceber que mais gente se dá conta do sexismo inerente à nossa cultura. E, penso que a melhor coisa que se pode fazer quanto à isso é se posicionar e comunicar uma opinião bem estruturada e coerente, como é a tua, para que se possa gerar alguma mudança na mentalidade das pessoas que ainda cultivam esses valores arraigados.
Parabéns por ter usado bem o espaço que tens aqui na Naipe. Percebi, acompanhando tuas publicações mais antigas, que isso é algo bem comum. =)
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